Por que escrever
e por que traduzi um livro sobre escrita.
Todo escritor já dedicou umas linhas a falar sobre o tema. É a pergunta incontornável: por que escrever? Na minha opinião, uma das reflexões mais profundas foi feita por Marguerite Duras em seu breve ensaio “Escrever”:
“Encontrar-se em um buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total, e descobrir que só a escrita vai te salvar. Não ter um tema para o livro, não ter ideia alguma para o livro é se encontrar ou se reencontrar diante de um livro. Uuma imensidão vazia. Um livro eventual. Diante de nada.”
Não ter ideia alguma para o livro ou , pior ainda, ter todas as ideias do mundo pululando em sua mente, e não saber o que escrever. Pois Duras tem a resposta:
Escrever é tentar saber o que escreveríamos se fôssemos escrefver - só ficamos sabendo depois - antes, é a pergunta mais perigosa que podemos fazer. Mas também é a mais comum.
Duras insiste em dizer: escrever é tentar escapar do vazio. Escrever é tentar entender.
Tem mais. Tem tanto mais que eu poderia transcrever o ensaio todo - mas vou deixar este link para vocês comprarem o livro, caso ainda não conheçam:
Chega um momento na vida do qual ninguém escapa, e penso que seja inevitável, do qual não se pode escapar, em que tudo é posto à prova: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. (...) E essa dúvida cresce ao nosso redor. Essa dúvida é solitária, é a dúvida da solidão. Nasce daí, da solidão. Já é possível dar nome à palavra. Acho que muitas pessoas não seriam capazes de suportar o que digo, elas fugiriam. Talvez por esse motivo nem todo homem seja escritor. Sim. É esta a diferença. É esta a verdade. Nada além disso. A dúvida é escrever.
Quem escreve, quem deseja escrever, compartilha dessa angústia: o que escrever, como escrever. Não podemos. Ninguém pode. E escrevemos.
Há cerca de quinze anos, quando o desejo e a impossibilidade da escrita começaram a assombrar o meu pensamento, conheci um livro que falava sobre isso. Das dificuldades em apresentar-se para o ato da escrita, mesmo sem saber o que e como escrever. Especialmente sem saber como escrever.
Foi através das preciosas dicas de escrita da saudosa Hillary Mantel no jornal inglês The Guardian (que você pode ler aqui, no original) que conheci Becoming a writer, de Dorothea Brande.
Brande fala sobre as dificuldades em escrever: sobre a resistência em realizar o ato de escrita mas, principalmente, sobre os bloqueios e crises sobre o que escrever. No livro, ela compartilha uma ideia bastante simples: as histórias vêm do inconsciente - desse lugar onde ficam guardadas não somente nossas experiências mas tudo que vimos, ouvimos, e até mesmo as coisas em que nem prestamos muita atenção.
Buscar o inconsciente como fonte de inspiração, escrever mesmo sem saber para onde a escrita vai nos levar. Escrever. Estar presente para que a musa nos visite. Com exercícios simples, atividades quase naturais, Brande nos guia para construir uma vida de escritores, algo que, para ela, deve preceder a formação técnica.
Faz muito sentido pra mim. Foi por isso que tive o desejo de traduzir o livro de Brande para o português. Assim nasceu “Para ser Escritora”.
Traduzir esse livro foi um exercício muito feliz e já me trouxe muitas coisas boas, a maior delas é ter a chance de conversar sobre esse desejo, essa urgência de escrever, ainda que não se saiba muito bem o que. Antes mesmo que se saiba como. Por conta dos encontros que os livros produzem, ter feito essa tradução foi uma grande alegria nestes últimos meses.
Te convido a conhecê-lo. Você pode encomendar o livro no site da Editora Mosaico: uma editora independente de BH .
Também vou ter a chance de expor o livro na FLIP 2026, junto da Escola de Escritoras. Se você estiver por lá, aparece pra gente bater um papo. Falar sobre literatura e escrita é sempre uma alegria, uma ponte que vence qualquer diferença ou distância.
Aparece, vai?
Em torno de nós, tudo escreve. É isso que precisamos perceber.
Para terminar, eu queria compartilhar algo que ouvi de Pilar del Rio sobre os livros. Ao lhe pedirem para escolher um livro recente que tinha lhe deixado “sem fôlego, com a sensação de que a vida vale a pena”, Pilar não conseguiu nomear um único livro. A resposta dela deixou o meu coração quentinho - e faço questão de copiar aqui pra vocês.



O link dessa postagem do IG eu deixo aqui pra vocês! Lembrem-se dela quando sentirem que a escrita parece perder o sentido, ou quando parecer que você não tem direito a contar uma história, porque afinal são tantos livros.
Escrevam, pessoas! Por mais trivial ou vasto que seja o seu tema. Escrevam sobre história, política, escrevam histórias de amor, distopias e utopias, escrevam sobre si, sobre seus pais e avós, sobre o bairro onde moram, sobre a vida que gostariam de ter vivivo. Guardem nos livros as lembranças do que foram e do que não puderam ser. Sonhem.
Desejo que muitos livros possam nascer do seu puro desejo de escrever.
Nos vemos na FLIP 2026!








Admiro demais o ofício da tradução! Fazem um trabalho incrível e nos permitem ultrapassar fronteiras - não fui à Paraty, mas passarei pelo seu livro assim mesmo!
Parabéns pela tradução!
Espero te encontrar nas ruas de Paraty!