Querido amigo,
(uma passagem por Paraty)
é curioso que, de todos os anos em que sonhei estar em uma flip, justamente nesse eu tenha conseguido realizá-lo .
justamente nesse ano que todas as previsões astrologicas nomeavam como terrível .
terrível vem sendo , e às vezes paro para tentar entender o que sobra da vida , excluído o terrível .
o que sobra é tudo aquilo que jamais constará nos anais da história , porque é efêmero.
Retezo o arco e o
sonho
espero:
nada mais é preciso.
(Orides Fontela)
a felicidade é muito passageira e é difícil compreendê-la
é difícil subtrair dela os excessos para que reste somente aquilo possível de ser compartilhado.
pois estive na flip , e nestes dias caminhando pelas ruas pedregosas, me equilibrando para mirar o céu , compreendi que a literatura é mesmo a vida .
coisas demais por todos os lados . tantas coisas que por vezes eu preferia a companhia do nada : das pedras , das flautas que imitavam passarinhos , das mesas cheias e das janelas coloridas , eu e minha mochila pesada demais de expectativas
de volta a casa , vi um homem regando um jardim esplêndido , e me dei conta de que na literatura também há os jardineiros e os donos do jardim . há os que são convidados para as festas onde se chega somente de barco , e há os que saem de livro embaixo do sovaco tentando encontrar um leitor que seja
e socorro dizendo que acredita no dom e por isso deixou de ensinar escrita que, para ela , não se aprende . Será que também se nasce com o dom de fazer jardins?
imaginem alguém dizendo isso a carolina
que ela não sabia colocar os acentos ou que trocava os S e os Z
há uma literatura que pensa estar destinada a poucos . mas eu vi uma cidade inteira que respira , lê e escreve. apesar de.
Escrevo tudo isso porque todos os dias desde que você se foi penso um bocado sobre nossa última conversa. Aquela em que você me disse justamente isso: eu gosto mesmo é de ler e escrever. Que tinha uma ideia e um esboço, mas “o que é que você vai fazer com isso?” Nem sempre dá tempo de fazer alguma coisa com isso. e essa é nossa maior questão.
Voltei da Flip pensando no que fazer com tudo isso. Isso tudo que me acontece ao mesmo tempo, o pequeno, o grande, o insuportável. Isso tudo que é a vida, a morte e o caminho entre uma coisa e outra.
Eu sinto saudades, especialmente daquilo que não foi. E me pergunto sobre tudo que ainda pode ser.
No mar interior em que
olhosvivências se tramam
no mar estruturado
de olhares em que a vida
se adensa, não há falhas
e onde tudo é vivo nenhum
barco furtivo se aventura
(Orides Fontela)






Que delícia de texto, Fla! A Flip mexe com a gente dum jeito, né?